Foi um alvoroço quando a W/Brasil anunciou que abriria uma filial em Fortaleza. Profissionais e estudantes cearenses de publicidade, carentes de emprego no setor, perceberam uma grande oportunidade de começar a carreira, logo numa das maiores agências do país. A mobilização foi maior ainda quando se soube que o próprio dono da W/Brasil, Washington Olivetto, seria o responsável pela seleção. Foi explicado que a escolha seria feita de uma forma inusitada. Nada de currículos comuns, com históricos, cursos e referências. Eles pediam somente um texto que tivesse uma apresentação criativa das qualidades do candidato, mantendo sempre a pertinência com as exigências para o cargo, no caso, o de redator.
Apesar de estar apenas no 4º semestre, eu me interessei e me vi capaz de conseguir a vaga, precisava “somente” escrever um texto convincente. Como a entrega do material seria feita apenas dali a duas semanas, não tive pressa. Acontece que sem pressão eu não funciono e de repente me vi a dois dias da entrega sem ter escrito uma linha sequer. Era um sábado, e me prometi passar a noite desenvolvendo minha apresentação. Até tentei. A quantidade de folhas amassadas no cesto de lixo denunciava minha insistência infrutífera em produzir um texto apresentável. A falta de sucesso na minha empreitada criativa, somada ao horário avançado, me desconcentraram do meu foco. Foi então que me ligaram me convidando para uma festa. Não pensei duas vezes, fui pra farra sem remorso.
Quando acordei no dia seguinte já eram quase 5 horas da tarde. Não lembrava de nada, mas sentia todas as seqüelas da farra. A cabeça quase explodindo, a incapacidade de me mover, a fotofobia e a tendência para a bulimia. Estava em estado de putrefação. O currículo para a seleção da W/Brasil nem me preocupava mais, afinal, não sabia sequer se iria sobreviver. Mas sobrevivi, e tarde da noite já estava andando de um lado para outro preocupado com a oportunidade que estava prestes a deixar escapar. Não iria conseguir escrever um currículo capaz de competir com alguma chance, em tão pouco tempo. Enquanto transbordava ansiedade e desilusão, fui limpando a bagunça que tomava conta do meu quarto (é, todo domingo à noite ele ficava intransitável). Quando peguei a calça que usei na noite anterior percebi que havia um volume no bolso de trás, e a princípio pensei que fosse dinheiro, mas logo vi que era só um guardanapo dobrado. Não lembrava porque o havia guardado. Como havia a possibilidade daquele papelzinho conter o telefone de uma loira sexy e siliconada (ué, eu poderia ter me dado bem na noite anterior, oras), resolvi conferi-lo antes de jogá-lo fora. Bom, não era um telefone, era muito melhor.
No dia seguinte entreguei pontualmente meu envelope com o currículo impecavelmente digitado, e fui pra casa com a esperança de ser chamado em breve para uma conversa, mesmo que fosse com um médico psiquiatra. Não era pra menos, afinal, esse era o meu currículo:
"Curriculum Vitae
Olá Washington, tudo bom?
Você acredita que estou escrevendo essa apresentação no meio de uma festa, C-O-M-P-L-E-T-A-M-E-N-T-E embriagado? Bom, mas não se preocupe, ao contrário do que se pode imaginar é uma vantagem ler um currículo escrito nessas condições. Afinal, todos sabemos que o álcool nos livra das amarras, dos pudores, e nos deixa mais francos do que normalmente somos. Essa é a garantia de que, diferente de grande parte dos currículos em sua mesa, este em suas mãos é totalmente verdadeiro e confiável. Minha momentânea desinibição me permite dizer por exemplo, que não sou o candidato com as melhores qualificações para o cargo. Não tenho experiência alguma, nunca trabalhei com redação publicitária e ainda estou apenas no 4º semestre do curso superior. Mas, porém, todavia, contudo, não tenho dúvidas de que possuo as ferramentas necessárias para me tornar um brilhante profissional da área: disposição para aprender, confiança no talento e a capacidade de escrever legivelmente em um guardanapo de papel, dentro de uma boate escura e barulhenta. Porque as grandes idéias podem surgir a qualquer hora, e o importante é estar preparado para aproveitá-las. O Sr. está?
Sinceramente,
Sidarta Arruda."
É, infelizmente não fui chamado. Acho que não quiseram correr riscos. Para o cargo de redator contrataram um profissional já experiente, com mestrado e especialização no exterior. Não fiquei triste, até porque ainda tinha muito o que aprender, e seleções a participar. Além disso, no final das contas, aquele espasmo etílico de criação não foi de todo perdido. Bastou você, professora, pedir à nós alunos que fizéssemos cada um, um conto, para que esse velho currículo de bêbado voltasse a ter utilidade, e saísse do fundo da gaveta para ganhar o mundo, ainda que seja só o seu.
*Conto produzido na cadeira de Atelier de Leitura e Produção de Textos, há muuuuitos anos atrás.
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1 comentário:
ADOREEEI!
KD VC QUE NÃO ESCREVE MAIS, HEEEEIN?
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