Seja Qual For

Dificuldade a gente sabe, todo mundo tem.
Seja rico, seja pobre, um doutor ou um zé ninguém,
Pode ser quem for.
Todo mundo já provou ou provará da mesma dor.
Seja qual for.
Derrota é se trancar em casa a se lamentar.

Necessidade a gente sabe, todo mundo passa.
Seja preto ou branco pode ser de qualquer raça,
Qualquer fé.
Somos todos humanos, é assim que a gente é.
E a gente sente
No corpo, na alma, na mente e marca a vida.

Desesperado a gente sabe, todo mundo fica.
Seja cedo ou tarde ao menos uma vez, querida,
A casa cai.
A saída é andar pra frente sem lamentar o que há pra trás.
E por onde for
Buscar por todo canto um grande amor e viver em paz.

A Farsa

Tudo fantasia aliada à ingenuidade.
Sonho capitalista casado à televisão.
Propaganda sútil que maquia a realidade.
Felicidade efêmera, não passa de ilusão.

De uma farsa.

É assim que funciona, é assim que roda o mundo
Onde a vida humana não vale se não dá lucro.
Mas dinheiro não alimenta, não tem vitamina.
Não passa de um papel qualquer, coberto de tinta.

De uma farsa.

O Cheiro do Ralo

O Cheiro do Ralo é um dos melhores filmes nacionais que já vi. O único de filme que achei melhor que o livro, e um caso raro de uma obra que me motivou a escrever sobre. O resultado foi a resenha abaixo, feita poucas horas depois de eu sair do cinema, no dia 17/07/07.
Prepare o olfato.

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Finalmente senti O Cheiro do Ralo

Depois de 4 meses do lançamento, somente agora Fortaleza, onde moro, pôs O Cheiro do Ralo em cartaz. E por apenas duas semanas. Fui hoje assisti-lo.

E fui faminto.

Já conhecia a obra de Mutarelli e há muito queria banquetear-me com esse filme que eu sabia ser delicioso.

E de fato é.

Cada pedacinho tem um sabor único.

É divertido e triste, coerente e maluco, engraçado e repugnante.

Impossível sair do cinema e esquecê-lo de imediato. Não se trata de enlatado. Um fast food que se compra e engole rápido. Pelo contrário. É um prato cheio, que pesa no estômago.

Custa a digeri-lo, como estou fazendo agora.

São muitas informações, muitas falas brilhantes (daquelas que você faz tudo pra decorar), e principalmente, muitas mazelas expostas... Tantas que dificilmente as suas não aparecem ali retratadas.

E é isso que te faz pensar.

E é isso que faz perceber o quanto cada um têm de Lourenço dentro de si.

E é isso que pode parecer perturbador.

Porque o ralo de todos nós, podem acreditar, fede.

O problema é que alguns estão tão acostumados com o mau cheiro, que nem o sentem mais.

Terra Miserável

A vida...
É um amontoamento
De marcantes momentos.
Alguns bons, outros nem tantos,
Outros difíceis de aguentar.
E segue a estrada e segue o tempo
Como uma roda que não pára,
Que não pára de girar.

E o que ela traz
Todos temos que aceitar.

A vida...
Segue incessantemente
Sem intervalo pra repouso,
Sem pausa pra descansar.
Pois quem tropeça no caminho
Pode acabar sozinho,
Porque a estrada é longa e ninguém,
E ninguém pode parar.

Se fica pra trás
Nada pára pra esperar.

A vida...
Não é justa, se acostume
Com a lama que te espera,
Com os escarros, com as pedras.
Os infortúnios que te punem,
Buracos em que tropeças.
Contingências da existência
Miserável nessa terra.

Eis que aqui jaz
Mais um sonho que se enterra.

CETICISMO ou FÉ?

Um dia duvidei da realidade
Das leis inquestionáveis
E então, confrontando a gravidade
Joguei-me de treze andares...
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.............................................................. ........i
............................................................. ......e
............................................................ ...o
........................................................... v
..................................... . . bati as asas e

Currículo de Bêbado Não Tem Dono*

Foi um alvoroço quando a W/Brasil anunciou que abriria uma filial em Fortaleza. Profissionais e estudantes cearenses de publicidade, carentes de emprego no setor, perceberam uma grande oportunidade de começar a carreira, logo numa das maiores agências do país. A mobilização foi maior ainda quando se soube que o próprio dono da W/Brasil, Washington Olivetto, seria o responsável pela seleção. Foi explicado que a escolha seria feita de uma forma inusitada. Nada de currículos comuns, com históricos, cursos e referências. Eles pediam somente um texto que tivesse uma apresentação criativa das qualidades do candidato, mantendo sempre a pertinência com as exigências para o cargo, no caso, o de redator.

Apesar de estar apenas no 4º semestre, eu me interessei e me vi capaz de conseguir a vaga, precisava “somente” escrever um texto convincente. Como a entrega do material seria feita apenas dali a duas semanas, não tive pressa. Acontece que sem pressão eu não funciono e de repente me vi a dois dias da entrega sem ter escrito uma linha sequer. Era um sábado, e me prometi passar a noite desenvolvendo minha apresentação. Até tentei. A quantidade de folhas amassadas no cesto de lixo denunciava minha insistência infrutífera em produzir um texto apresentável. A falta de sucesso na minha empreitada criativa, somada ao horário avançado, me desconcentraram do meu foco. Foi então que me ligaram me convidando para uma festa. Não pensei duas vezes, fui pra farra sem remorso.

Quando acordei no dia seguinte já eram quase 5 horas da tarde. Não lembrava de nada, mas sentia todas as seqüelas da farra. A cabeça quase explodindo, a incapacidade de me mover, a fotofobia e a tendência para a bulimia. Estava em estado de putrefação. O currículo para a seleção da W/Brasil nem me preocupava mais, afinal, não sabia sequer se iria sobreviver. Mas sobrevivi, e tarde da noite já estava andando de um lado para outro preocupado com a oportunidade que estava prestes a deixar escapar. Não iria conseguir escrever um currículo capaz de competir com alguma chance, em tão pouco tempo. Enquanto transbordava ansiedade e desilusão, fui limpando a bagunça que tomava conta do meu quarto (é, todo domingo à noite ele ficava intransitável). Quando peguei a calça que usei na noite anterior percebi que havia um volume no bolso de trás, e a princípio pensei que fosse dinheiro, mas logo vi que era só um guardanapo dobrado. Não lembrava porque o havia guardado. Como havia a possibilidade daquele papelzinho conter o telefone de uma loira sexy e siliconada (ué, eu poderia ter me dado bem na noite anterior, oras), resolvi conferi-lo antes de jogá-lo fora. Bom, não era um telefone, era muito melhor.

No dia seguinte entreguei pontualmente meu envelope com o currículo impecavelmente digitado, e fui pra casa com a esperança de ser chamado em breve para uma conversa, mesmo que fosse com um médico psiquiatra. Não era pra menos, afinal, esse era o meu currículo:


"Curriculum Vitae

Olá Washington, tudo bom?
Você acredita que estou escrevendo essa apresentação no meio de uma festa, C-O-M-P-L-E-T-A-M-E-N-T-E embriagado? Bom, mas não se preocupe, ao contrário do que se pode imaginar é uma vantagem ler um currículo escrito nessas condições. Afinal, todos sabemos que o álcool nos livra das amarras, dos pudores, e nos deixa mais francos do que normalmente somos. Essa é a garantia de que, diferente de grande parte dos currículos em sua mesa, este em suas mãos é totalmente verdadeiro e confiável. Minha momentânea desinibição me permite dizer por exemplo, que não sou o candidato com as melhores qualificações para o cargo. Não tenho experiência alguma, nunca trabalhei com redação publicitária e ainda estou apenas no 4º semestre do curso superior. Mas, porém, todavia, contudo, não tenho dúvidas de que possuo as ferramentas necessárias para me tornar um brilhante profissional da área: disposição para aprender, confiança no talento e a capacidade de escrever legivelmente em um guardanapo de papel, dentro de uma boate escura e barulhenta. Porque as grandes idéias podem surgir a qualquer hora, e o importante é estar preparado para aproveitá-las. O Sr. está?

Sinceramente,
Sidarta Arruda."


É, infelizmente não fui chamado. Acho que não quiseram correr riscos. Para o cargo de redator contrataram um profissional já experiente, com mestrado e especialização no exterior. Não fiquei triste, até porque ainda tinha muito o que aprender, e seleções a participar. Além disso, no final das contas, aquele espasmo etílico de criação não foi de todo perdido. Bastou você, professora, pedir à nós alunos que fizéssemos cada um, um conto, para que esse velho currículo de bêbado voltasse a ter utilidade, e saísse do fundo da gaveta para ganhar o mundo, ainda que seja só o seu.


*Conto produzido na cadeira de Atelier de Leitura e Produção de Textos, há muuuuitos anos atrás.

São Paulo

A cidade não tem mais estrelas.
Na verdade tudo é luz de poste.
Cidade, onde estás tua beleza?
Além do que a fumaça encobre.

Melancolia

De que me serve ter alegria
Se a melancolia me domina?
De que me servem os amigos
Se com eles continuo só?
De que me serve o pôr do Sol
Se a poesia me abandonou?
De que me serve sentir amor
Se a solidão é minha sina?
De que me serve viver o dia
Se é na noite que eu me inspiro?
De que me serve encontrar você
Se com você fico perdido?

Liberdade

Liberdade,
Quem realmente a tem?
Que levante o braço quem
Não estiver algemado
A algo ou a alguém.

Começando do fim.

Bom, eu havia pensando em começar postando a primeira poesia que fiz na vida, mas me deparei com dois problemas. Primeiro que ela é bem bobinha, e segundo que não a estou encontrando no computador. Sendo assim, para continuar dentro um critério cronológico, resolvi partir de frente para trás, e postar os dois últimos trabalhos que fiz. São tão bobos quanto a tal da primeira poesia, eu confesso, mas pelo menos estão mais fáceis de achar.
Em um curso de produção de texto que participei na última semana (um dos grandes incentivos para eu criar esse blog), o professor passava algumas tarefas de casa. Uma delas pedia uma crônica sobre velhice, o que me fez escrever sobre mim mesmo, e a outra um soneto sobre sexo, que acabei escrevendo no chacoalhar ritmado de dentro do ônibus, perdido a noite pela cidade. Ei-los:




Mini crônica de um novo velho.

Dizem que a velhice está na cabeça, e é justamente isso que me amedronta. É que semana passada encontrei meu primeiro fio de cabelo branco. No peito há tempos haviam vários, mas estavam ali, discretos, escondidos por baixo da blusa. Já na cabeça não tem jeito de disfarçar. Até porque pega mal um coroa ficar usando boné.

Dizem ainda que na minha idade, 30, os homens costumam entrar em crise existencial. Um tal de Balzac tentou explicar os motivos. Algo assim. Não entendo muito sobre isso, mas esse Balzac e o Prozac terem o mesmo sufixo não deve ser por acaso.

Dizem, por fim, que a vida inicia aos 40. Se for assim, ainda me restam 10 anos antes de nascer. O que fazer até lá? Eu, sinceramente, não sei, mas desconfio que ir, o quanto antes, testando tinturas de cabelo, já seja um bom começo.




Soneto do Sexo

Um hálito que me envolve quente
Um toque que me queima a carne
Uma boca que me crava o dente
Uma unha que minha pele parte.

Um desejo que se faz urgente
Uma chama que no corpo arde
Um cheiro que meu faro sente
Uma Vênus que se entrega a Marte.

Chega manso, suave, de jeito
Teu corpo todo, teu beijo
Me conquista e me invade

Teu sexo, é assim que o vejo
Quando em teu colo adormeço
Sonhando pra que nunca acabe.

Apresentação

Olá...
bom, minhas aventuras literárias começaram na adolescência. Época de dúvidas, revoltas, depressões e uma visão, por muitas vezes, irreverente das coisas sérias.
Comecei fazendo poesias, com forte influência de Augusto dos Anjos (olha a depressão aí, gente). Depois comecei a fazer rock, escrevendo as letras, é claro. Primeiro um punk sujo ramonesniano. Depois um punk, também sujo, mas que escovava os dentes.
Nesse meio tempo descobri a publicidade, e desde então dedico essa mania de escrever para anúncios de carros, de dentistas e bijouterias... mas esses textos, não se preocupe, você não encontrará por aqui. Para eles tenho um blog específico.
Aqui serão apenas devaneios. Textos esporádicos; bons ou ruins, sérios ou cômicos, políticos ou alienados, uma coisa eles terão em comum: despretensão total.

Boa leitura.