Manhã - Tarde - Noite

A MANHÃ

Raios de luz que surgem ao horizonte.

Luz que, em raios, atravessa a janela.

Sol que desperta, tal qual uma fonte

Jorrando a vida

[que a faz ser mais bela.

A TARDE

Em tudo na vida existe uma metade

E algo no meio que define a divisa.

Entre a manhã e a noite existe a tarde,

Como entre a bonança e a tempestade

[existe a brisa.

A NOITE

A noite às vezes atrai pro que ela revela.

A noite às vezes conquista pro que ela oculta.

Cativa e envolve quem completa nela

A entrega inteira

[de viver sem culpa.

Além dos 30

Balzac repousa
na falta de espaço
de um coração suprimido.
É quando os sonhos
já não cabem no futuro
E se limitam a projetar
apenas
o que poderia ter sido.

De poesia à letra

No post anterior coloquei a última poesia que escrevi. E, como fiz com muitas outras antes dessa, resolvi musicá-la. O problema é que transformar um poema em letra de música exige uma adequação do texto à métrica, à melodia e ao ritmo. Ou seja, invariavelmente é preciso mudar algumas partes. Foi o que tive que fazer nesse caso. O resultado, apesar de manter a mesma essência da original, foi uma peça bem distinta, por isso posto-a aqui.

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Sempre Vale a Experiência

E daí que uma hora ela muda?
E daí que um dia ela acaba?
Seja ela feita de doçura,
Seja ela azeda ou amarga.

Se, voraz, ela for muita.
Se, fugaz, ela for nada

Sempre vale a experiência.
Que no coração deságua.

E daí que ela seja bruta?
E daí que ela seja calma?
Que me atinja o peito bem aguda.
Que só raspe e passe assim bem rasa.

Se incapaz de seguir junta.
Se jamais for separada.

Sempre vale a experiência.
Que no coração dispara.

E daí que ela seja curta?
E daí que ela se vá cedo?
Que ela me conforte com ternura
Que ela me sufoque em desespero.

Se, sagaz, me der uma fuga.
Se, mordaz, me deixar preso.

Sempre vale a experiência.
Que deixa o coração aceso.

Sempre vale a experiência.

E daí que uma hora muda?
E daí que um dia acaba?
Se, fugaz, ela for breve,
Ou bem longa, que assim seja.
Doce ou feita de amargura.
O que importa é que me marque.
Que me marque sendo intensa.
Pois sempre vale a experiência
Que no coração deságua.

E daí que seja bruta?
E daí que seja calma?
Se, capaz, caminhar junta
Ou de mim for separada,
Há de, sim, me deixar marca.
E o que importa é que me marque.
Que me marque sendo intensa
Pois sempre vale a experiência
Que no coração afunda.

E daí que seja curta?
E daí que seja cedo?
Se, voraz, ela for muita
Ou bem pouca, que assim seja.
Me liberte ou deixe preso.
O que importa é que me marque
Que me marque sendo intensa.
Pois sempre vale a experiência
Que deixa o coração aceso.

A Majestade e a Suprema Seboseira

Quem navega em internet sabe. Existe por aí uma infinidade de listas do tipo “coisas que eu odeio”. Confesso que acho uma idiotice. O problema é que eu sou o Rei dos Idiotas, e se não fiz uma lista assim até hoje é porque existe outro reino em que sou ainda mais soberano: o da preguiça.

De qualquer forma, já tenho em mente um forte candidato ao topo da minha lista de “coisas que eu odeio”.

Repara só!

Sabe frango? Seja cozido, assado, ensopado ou qualquer outro? Pois é, eu adoro. O que odeio mesmo são as pessoas que os comem com a mão. Quer dizer, nenhum problema comerem com as mãos, contanto que sejam as deles e, é claro, as mantenham longe de mim. O que complica é que esse povo pega o frango com a mão e depois passa a mesma, toda oleosa, em tudo que é lugar. No saleiro, na jarra de suco, na concha do feijão... daí você, que come civilizadamente com o talher, acaba também melando a mão de óleo ao pegar nesses objetos.

Outro dia, por exemplo, eu fui tarde da noite na cozinha pegar um copinho de coca-cola. Tirei a pet da geladeira e quando toquei na tampinha, voilá, toda oleosa do frango que meu irmão comera no almoço. Asco total. Textura sebosa e cheiro enjoento. Na mesma hora peguei um pano de prato para me limpar e terminar de abrir a tampinha. Assim foi, coloquei o refri no copo e fui fechar a garrafa. O pano estava todo dobrado, o que complicou a “pegada” na tampinha melecada. Comecei a tentar rosqueá-la com todo cuidado, sentindo-a escapando e preocupado em não me deixar melar com aquele óleo nojento outra vez. Daí, nessa situação patética e ridícula, aconteceu: tampinha bambeia, tampinha bambeia, tampinha escapole e... PLOFT. Dentro do copo que eu acabara de encher.

É dose.

Mas é com essa curta e singela historinha que eu termino por provar duas afirmações feitas antes. A primeira é que mãos e objetos besuntados de óleo de frango são uma das coisas mais odiáveis que existe. Já a segunda é que a Coroa do Reino dos Idiotas está muito bem entregue.

Por Ela

De que vale a vida assim sem nada.
Sem um choro, um riso, um amor.
Sem ter dor, sem ter mágoa.
Sentimento seja qual for.
De que vale uma vida apagada.
Sem um canto ou alguém pra rever.
Sem saudades, sem ter marcas.
Más ou boas: isso é viver.

Sol nascendo na minha alma.
Sorriso dela para mim.
Por ela descem minhas lágrimas.
Por ela eu sorrio assim.

Não se apagam, não se cansam ou envelhecem,
As lembranças tantas em mim.
O que se guarda não se perde.
Não se pode ter um fim.
Pois sem limite é o vôo
Se com a alma livre eu estou.
Fazer valer eu vou
Se com a alma livre eu estou.

E se um dia meu Sol se pôr,
Não termino na escuridão.
Levo a luz de saber que
Nada que vivi foi em vão.

Quanto mais provo o mundo
Mais meu coração
Bate com força no peito.
Pros novos lugares que conheço,
Os amigos que nunca esqueço,
E os amores que fiz.
Memórias de uma vida louca...
Louca, louca, louca, louca...
E feliz.

Vida Chama

Após de um longo período de ausência, retorno para tirar daqui as teias de aranha. E só venho tirá-las do blog porque primeiro as tirei do meu processo criativo.

É que depois de muito tempo, enfim, criei algo inédito.

Os motivos pelos quais fiquei tanto tempo sem escrever algo novo são vários. Desde a dedicação quase que exclusiva ao trabalho, até a pura e simples falta de motivação.

Mas eis que voltei a ensaiar com uma banda e isso me empolgou a terminar uma letra que havia começado mutos anos atrás, e estava incabada desde então.

Dois amigos me ajudaram, indiretamente, a escrevê-la.

O primeiro, ainda no século passado, me mandou um texto bem maluco que tinha feito e que achava que podia ser musicado. Era psicodélico e um dos trechos dizia "pegue emprestado os ouvidos de um louco", Com o texto não consegui fazer nada, mas esse trecho foi um dos ingredientes para minha inspiração ao criar uma letra para uma música que tinha feito na época. Tanto que um dos versos diz: "escute o mundo com ouvidos insanos", que nada mais é do que uma adaptação do que meu amigo Ryan tinha escrito no seu texto amalucado. Por isso o considero um dos co-autores dessa letra.

Letra que ficou engavetada desde então. A música até foi terminada, mas a letra estacionou em duas estrofes de 4 versos cada.

Uns 4 anos atrás, quando eu tocava com uns amigos, pedi ao vocalista para colocar uma nova letra nessa música, já que eu não tinha ideias para terminar a minha. Ele inseriu algo que já tinha escrito, e que falava das crises de ciúme da namorada. Eu curtia, mas achava que o estilo da música pedia um tema mais profundo. Apesar disso, um verso me chamava atenção, quando ele falava dos exageros da namorada através da metáfora "faz furacão de um suspiro".

Quando a banda acabou a música voltou pra gaveta.

Até semana passada, quando resolvi terminar sua letra original. O problema era a ideia que faltava para começar a segunda parte. Eis que lembrei do tal verso do "furacão" feito pelo meu amigo Leandro para a namorada, e vi que ele se encaixava direitinho, apesar de assumir um outro contexto e sentido na minha versão. Por isso o considero também um co-autor do texto que segue abaixo.




VIDA CHAMA



Procure uma fuga
Escute o mundo com ouvidos insanos
Leve nos olhos o brilho profano da loucura
E siga sem culpa

Tenha desejos
Beba da vida, prove dos seus pecados
Leve na língua o gosto amargo de vivê-los
E siga sem medo.

Torne intenso tudo que a vida traz
Po-ten-cia-li-zan-do
Furacão que nasce de um suspiro
Brasa em chama que cresce e vira vulcão

(Vida chama)
Breve nota que vira canção
(Vida em chamas)
Oceano que surge de um pingo
(Vida chama)
Potencializando e sem temer
(Vida em chamas)

Sem temer os riscos

E siga sem grilo

Encontre uma curva
Um novo caminho, uma nova paisagem
Leve sua história além da margem do que se especula
E siga sem bula

Assuma o preço
Que se cobra fácil, que se cobra firme
Leve na alma as marcas que exprimem seus efeitos
E siga sem freio

Torne intenso tudo que a vida traz
Po-ten-cia-li-zan-do
Furacão que nasce de um suspiro
Breve chama que cresce e vira vulcão

Porque não basta ter um coração
É preciso fazê-lo sentir dentro no peito
A bater bem, a bater mal...
Transbordando em erupção
Todas as cores, odores e temperos
Que só uma existência plena pode proporcionar
Pra que assim se um dia,
ao cair das cortinas,
ao fechar das luzes
ao final do espetáculo tragicômico que encenas.
Tenha quem aplauda, tenha quem ofenda
Mas que nunca entre em pauta
A sensação de indiferença.


E siga com essência.

Cordel - A Chegada da TV no Ceará

Na minha primeira postagem nesse blog eu prometi não publicar aqui textos dos meus anúncios, mas acho que no caso a seguir vale a pena fazer uma exceção. Primeiro porque o texto em questão, a meu ver, tem um cunho muito mais artístico que publicitário. E segundo porque eu gosto muito, muito dele. Tanto que até o musiquei.

Bom, tudo começou quando eu estava na agência experimental da faculdade e nos chegou a responsabilidade de criar uma campanha para a Semana de Comunicação daquele ano, cujo tema era "45 anos da TV no Ceará". Conversando com o diretores de arte decidimos criar uma peça de caráter bem regional, e que tivesse um texto apropriado, em formato e conteúdo, que resumisse um pouco dessa história. Foi daí que surgiu meu primeiro e, até agora, único cordel.

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A CHEGADA DA TV NO CEARÁ


Algo totalmente novo.
Um assombro de invento.
Um avanço que no povo
Causou grande espantamento.
Como cabia o mundo todo
Dentro de tal equipamento?

O que antes só se ouvia
Agora se podia ver.
Imagem que se mexia.
Difícil até pra crer.
Era a mudança que trazia
A chegada da TV.

Se expandiram as fronteiras,
O alcance do olhar.
Até onde a vista chega
Não tem como limitar.
Se enxergando a Terra inteira
Sem sair do Ceará.

E de frente para a tela
Foi-se então passando o tempo.
A TV virou de casa.
Nossa cara, nosso jeito.
E se ela pode ser janela
Também nos serve de espelho.

Seja Qual For

Dificuldade a gente sabe, todo mundo tem.
Seja rico, seja pobre, um doutor ou um zé ninguém,
Pode ser quem for.
Todo mundo já provou ou provará da mesma dor.
Seja qual for.
Derrota é se trancar em casa a se lamentar.

Necessidade a gente sabe, todo mundo passa.
Seja preto ou branco pode ser de qualquer raça,
Qualquer fé.
Somos todos humanos, é assim que a gente é.
E a gente sente
No corpo, na alma, na mente e marca a vida.

Desesperado a gente sabe, todo mundo fica.
Seja cedo ou tarde ao menos uma vez, querida,
A casa cai.
A saída é andar pra frente sem lamentar o que há pra trás.
E por onde for
Buscar por todo canto um grande amor e viver em paz.

A Farsa

Tudo fantasia aliada à ingenuidade.
Sonho capitalista casado à televisão.
Propaganda sútil que maquia a realidade.
Felicidade efêmera, não passa de ilusão.

De uma farsa.

É assim que funciona, é assim que roda o mundo
Onde a vida humana não vale se não dá lucro.
Mas dinheiro não alimenta, não tem vitamina.
Não passa de um papel qualquer, coberto de tinta.

De uma farsa.

O Cheiro do Ralo

O Cheiro do Ralo é um dos melhores filmes nacionais que já vi. Um caso de único de filme que achei melhor que o livro, e um caso raro de uma obra que me motivou a escrever sobre. O resultado foi a resenha abaixo, feita poucas horas depois de eu sair do cinema, no dia 17/07/07.
Prepare o olfato.

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Finalmente senti O Cheiro do Ralo

Depois de 4 meses do lançamento, somente agora Fortaleza, onde moro, pôs O Cheiro do Ralo em cartaz. E por apenas duas semanas. Fui hoje assisti-lo.

E fui faminto.

Já conhecia a obra de Mutarelli e há muito queria banquetear-me com esse filme que eu sabia ser delicioso.

E de fato é.

Cada pedacinho tem um sabor único.

É divertido e triste, coerente e maluco, engraçado e repugnante.

Impossível sair do cinema e esquecê-lo de imediato. Não se trata de enlatado. Um fast food que se compra e engole rápido. Pelo contrário. É um prato cheio, que pesa no estômago.

Custa a digeri-lo, como estou fazendo agora.

São muitas informações, muitas falas brilhantes (daquelas que você faz tudo pra decorar), e principalmente, muitas mazelas expostas... Tantas que dificilmente as suas não aparecem ali retratadas.

E é isso que te faz pensar.

E é isso que faz perceber o quanto cada um têm de Lourenço dentro de si.

E é isso que pode parecer perturbador.

Porque o ralo de todos nós, podem acreditar, fede.

O problema é que alguns estão tão acostumados com o mau cheiro, que nem o sentem mais.

Terra Miserável

A vida...
É um amontoamento
De marcantes momentos.
Alguns bons, outros nem tantos,
Outros difíceis de aguentar.
E segue a estrada e segue o tempo
Como uma roda que não pára,
Que não pára de girar.

E o que ela traz
Todos temos que aceitar.

A vida...
Segue incessantemente
Sem intervalo pra repouso,
Sem pausa pra descansar.
Pois quem tropeça no caminho
Pode acabar sozinho,
Porque a estrada é longa e ninguém,
E ninguém pode parar.

Se fica pra trás
Nada pára pra esperar.

A vida...
Não é justa, se acostume
Com a lama que te espera,
Com os escarros, com as pedras.
Os infortúnios que te punem,
Buracos em que tropeças.
Contingências da existência
Miserável nessa terra.

Eis que aqui jaz
Mais um sonho que se enterra.

CETICISMO ou FÉ?

Um dia duvidei da realidade
Das leis inquestionáveis
E então, confrontando a gravidade
Joguei-me de treze andares...
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.............................................................. ........i
............................................................. ......e
............................................................ ...o
........................................................... v
..................................... . . bati as asas e

Currículo de Bêbado Não Tem Dono*

Foi um alvoroço quando a W/Brasil anunciou que abriria uma filial em Fortaleza. Profissionais e estudantes cearenses de publicidade, carentes de emprego no setor, perceberam uma grande oportunidade de começar a carreira, logo numa das maiores agências do país. A mobilização foi maior ainda quando se soube que o próprio dono da W/Brasil, Washington Olivetto, seria o responsável pela seleção. Foi explicado que a escolha seria feita de uma forma inusitada. Nada de currículos comuns, com históricos, cursos e referências. Eles pediam somente um texto que tivesse uma apresentação criativa das qualidades do candidato, mantendo sempre a pertinência com as exigências para o cargo, no caso, o de redator.
Apesar de estar apenas no 4º semestre, eu me interessei e me vi capaz de conseguir a vaga, precisava “somente” escrever um texto convincente. Como a entrega do material seria feita apenas dali a duas semanas, não tive pressa. Acontece que sem pressão eu não funciono e de repente me vi a dois dias da entrega sem ter escrito uma linha sequer. Era um sábado, e me prometi passar a noite desenvolvendo minha apresentação. Até tentei. A quantidade de folhas amassadas no cesto de lixo denunciava minha insistência infrutífera em produzir um texto apresentável. A falta de sucesso na minha empreitada criativa, somada ao horário avançado, me desconcentraram do meu foco. Foi então que me ligaram me convidando para uma festa. Não pensei duas vezes, fui pra farra sem remorso.
Quando acordei no dia seguinte já eram quase 5 horas da tarde. Não lembrava de nada, mas sentia todas as seqüelas da farra. A cabeça quase explodindo, a incapacidade de me mover, a fotofobia e a tendência para a bulimia. Estava em estado de putrefação. O currículo para a seleção da W/Brasil nem me preocupava mais, afinal, não sabia sequer se iria sobreviver. Mas sobrevivi, e tarde da noite já estava andando de um lado para outro preocupado com a oportunidade que estava prestes a deixar escapar. Não iria conseguir escrever um currículo capaz de competir com alguma chance, em tão pouco tempo. Enquanto transbordava ansiedade e desilusão, fui limpando a bagunça que tomava conta do meu quarto (é, todo domingo à noite ele ficava intransitável). Quando peguei a calça que usei na noite anterior percebi que havia um volume no bolso de trás, e a princípio pensei que fosse dinheiro, mas logo vi que era só um guardanapo dobrado. Não lembrava porque o havia guardado. Como havia a possibilidade daquele papelzinho conter o telefone de uma loira sexy e siliconada (ué, eu poderia ter me dado bem na noite anterior, oras), resolvi conferí-lo antes de jogá-lo fora. Bom, não era um telefone, era muito melhor.
No dia seguinte entreguei pontualmente meu envelope com o currículo impecavelmente digitado, e fui pra casa com a esperança de ser chamado em breve para uma conversa, mesmo que fosse com um médico psiquiatra. Não era pra menos, afinal, esse era o meu currículo:


"Curriculum Vitae

Olá Washington, tudo bom?
Você acredita que estou escrevendo essa apresentação no meio de uma festa, C-O-M-P-L-E-T-A-M-E-N-T-E embriagado? Bom, mas não se preocupe, ao contrário do que se pode imaginar é uma vantagem ler um currículo escrito nessas condições. Afinal, todos sabemos que o álcool nos livra das amarras, dos pudores, e nos deixa mais francos do que normalmente somos. Essa é a garantia de que, diferente de grande parte dos currículos em sua mesa, este em suas mãos é totalmente verdadeiro e confiável. Minha momentânea desinibição me permite dizer por exemplo, que não sou o candidato com as melhores qualificações para o cargo. Não tenho experiência alguma, nunca trabalhei com redação publicitária e ainda estou apenas no 4º semestre do curso superior. Mas, porém, todavia, contudo, não tenho dúvidas de que possuo as ferramentas necessárias para me tornar um brilhante profissional da área: disposição para aprender, confiança no talento e a capacidade de escrever legivelmente em um guardanapo de papel, dentro de uma boate escura e barulhenta. Porque as grandes idéias podem surgir a qualquer hora, e o importante é estar preparado para aproveitá-las. O Sr. está?

Sinceramente,
Sidarta Arruda."


É, infelizmente não fui chamado. Acho que não quiseram correr riscos. Para o cargo de redator contrataram um profissional já experiente, com mestrado e especialização no exterior. Não fiquei triste, até porque ainda tinha muito o que aprender, e seleções a participar. Além disso, no final das contas, aquele espasmo etílico de criação não foi de todo perdido. Bastou você, professora, pedir à nós alunos que fizéssemos cada um, um conto, para que esse velho currículo de bêbado voltasse a ter utilidade, e saísse do fundo da gaveta para ganhar o mundo, ainda que seja só o seu.


*Conto produzido na cadeira de Atelier de Leitura e Produção de Textos, há 5 anos atrás.

São Paulo

A cidade não tem mais estrelas.
Na verdade tudo é luz de poste.
Cidade, onde estás tua beleza?
Além do que a fumaça encobre.